Tapete Vermelho para Elefante Branco - O Embate entre as Diferenças dos Alunos na Universidade
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Táticas: expressão da vontade histórica de existir

 

        

         A questão central de Certeau (1994) é saber como as pessoas se servem dos sistemas de representação e dos espaços. Para ele, é necessário saber como as pessoas se servem de, por exemplo, hinos, cantos, danças e que usos fazem de um elemento de representação ou lingüístico. Certeau (1994) refere-se aos diferentes usos que podem ser feitos, por exemplo, da rua de uma cidade ou, com relação à leitura, “como o leitor camponês, que estava acostumado a um sistema de transmissão oral, utiliza o jornal ou a imagem de TV”. Ele propõe a análise do que chama de morfologia da prática, ou melhor, lógica da ação. Segundo o autor, o problema se torna analisar as práticas cotidianas enquanto uma lógica de práticas, como uma rede de operações cuja forma pode ser investigada (CERTEAU, 1985).

Com relação à minha pesquisa, a questão central é conhecer os posicionamentos dos alunos sobre o convívio com as diferenças. Tais posições interferem, orientam ou desorientam as práticas cotidianas. Para Certeau (1985), o que existe de mais fundamental nas práticas cotidianas é a maneira como praticamos, ou melhor, a maneira de nos fazer presente no cotidiano. Nesse sentido, o autor exemplifica as maneiras de fazer cotidianas com uma situação específica: a forma como os provérbios são utilizados em um bate papo, visando a mudar o equilíbrio da conversa. Essa forma/maneira de utilizar um provérbio constitui uma situação em que o sujeito “identifica” o momento certo de utilizá-lo, o que Certeau (1985) denomina golpe. Assim, pode-se dizer que a utilização do provérbio, ou melhor, a maneira de praticar o uso do provérbio, empregando-o em momentos “cruciais”, pode aparecer como uma forma de dar golpes. Certeau (1985) aponta que o golpe constitui-se como um ato sintetizador, que está ligado a uma conjuntura, a um instante.

A personagem Tânia “golpeou” César quando lhe entregou um folheto informativo sobre a temática da distribuição das verbas nos diferentes institutos. Colocou-o em uma situação de constrangimento.

Certeau (1985) assinala que as práticas são caças furtivas, ou seja, constituem-se como uma atividade do caçador em floresta alheia, caçando em um lugar do qual não é o dono. Afirma que a maioria das práticas do cotidiano são práticas de furtividade, uma vez que há a imersão em um espaço que não nos pertence. Nesse espaço, agimos sorrateiramente, tentamos tirar vantagem, por meio de práticas sutis e disfarçadas.

Certeau (1985) afirma que as práticas cotidianas são antropofágicas, pois o essencial não é aquilo que o praticante come ou vê, mas aquilo que faz daquilo que come ou vê. O autor ressalta essa idéia ao mostrar o que o sujeito pode fabricar com a rua, com os utensílios domésticos, com as imagens da TV. Acredito que devemos interpretar essa antropofagia praticada pelo consumidor para compreendermos as maneiras de fazer no cotidiano.

Além do caráter antropofágico, Certeau (1985) ressalta o triplo caráter dessas práticas: estético, ético e polêmico.

No que diz respeito ao caráter estético, o autor define que a arte de fazer, a maneira de utilizar a rua ou o espaço, a maneira de utilizar um provérbio, enfim, as maneiras de praticarmos no cotidiano têm um estilo à medida apresentam uma determinada expressividade. Para o autor, a arte de fazer não se traduz apenas num discurso, mas em um ato que tem um estilo. Dessa forma, é preciso recuperar a atividade estética do utilizador nos objetos de que se serviu.

Quanto ao caráter ético, Certeau (1985; 1994) aponta que “as práticas constituem uma maneira de o agente se recusar a ser identificado na ordem tal como ela se impõe”. Há sempre uma ordem que não pode ser mudada e o aspecto ético dessas práticas aparece no momento em que a lei dos fatos não é obedecida. Para Certeau (1985), “o ético é a recusa à identificação com a ordem ou com a lei dos fatos. É o abrir um espaço. Um espaço que não é fundado sobre a realidade existente, mas sobre uma vontade de criar alguma coisa”.

Para Certeau, essas práticas transformadoras da ordem imposta apontam uma vontade histórica de existir.

O caráter polêmico das práticas cotidianas refere-se ao fato delas serem defesas para a vida, intervenções em um conflito permanente, em uma relação de força. Para o autor “quanto mais fraco se é, mais se deve ser malicioso. Ou seja, quanto mais fraco se é, mais necessário se torna ser inteligente” (CERTEAU,1985). Essa inteligência, que deve estar presente nas relações de força, está ligada à necessidade de se saber dar bons golpes.

Para o autor, as práticas cotidianas apresentam uma maneira de lutar contra o mais forte para o contornar, para o utilizar. Segundo Certeau (1994), o aspecto polêmico constitui sempre uma arte de pessoas fracas tendo em vista reencontrar, através da utilização das forças existentes, um meio de se defender ante a posição mais forte.

         Certeau (1985; 1994) levanta dois conceitos fundamentais para se compreender e analisar as práticas cotidianas: táticas e estratégias. A estratégia é “o cálculo ou a manipulação de relações de força que se tornam possíveis a partir do momento em que um sujeito de vontade ou poder é isolável e tem lugar de poder ou de saber”.

Tendo em vista as definições de Certeau e a questão das diferenças entre as pessoas, há quem tem o PODER e almeja o CONTROLE do outro, seja por meio da negação da diferença ou da tolerância. Essa força manipula e está isolada em um lugar de DECISÃO em relação a uma exterioridade. Dessa forma, a estratégia é definida pela POSSE DE UM LUGAR PRÓPRIO, como é o caso, por exemplo, da ciência moderna que se constituiu como um lugar próprio.

Quanto às táticas, Certeau aponta que são definidas pela ausência de um lugar próprio. Constituem-se por uma ação calculada ou pela manipulação de força quando não se tem um próprio, quando estamos dentro do campo do outro, no interior de um campo definido pelo outro e é em função da ausência desse lugar próprio que calculamos a relação de força.

Nesse sentido, muitos alunos são sujeitos que, cotidianamente, agem no campo alheio a partir do que Certeau denomina táticas. Conforme o autor, estamos em posição de fraqueza no interior de uma ordem imposta, pois não estamos em um lugar autônomo para gerir as relações de força.

Na tática, damos golpes, aproveitamos conjunturas, circunstâncias. Para Certeau  (1994), o sujeito fraco joga com as forças do outro, mas não o manipula. Portanto, a tática é o movimento dentro do campo de visão do inimigo e no espaço por ele ocupado.

A tática “é determinada pela ausência de poder assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder” (CERTEAU, 1994, p. 101). Para Certeau (1994), TÁTICA não pode contar com um próprio. A tática só tem por lugar o do outro. Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos.

Carla se serve do espaço universitário, dá golpes, coloca em funcionamento táticas. O que faz do espaço que a ela é destinado provoca alterações no próprio ambiente. Manuela também dispõe de táticas diante da sua vontade histórica de existir. Ela almejou uma discussão sobre a construção de uma universidade acessível a todos a partir da troca de idéias com colegas com e sem deficiência.

Ainda sobre o conceito de tática, o “próprio”, que não é da tática, é uma vitória do lugar sobre o tempo. Isso porque o próprio não depende da ocasião, já está dado, ligado às estratégias. Ao contrário, pelo fato do seu não lugar, a tática depende do tempo, vigiando para captar no vôo possibilidades de ganho: depende da ocasião, é feita em um instante. O que a tática ganha, não o guarda, mas está constantemente jogando com os acontecimentos para os transformar em ocasiões (CERTEAU, 1994, p. 47). As táticas apresentam continuidades e permanências, multiplicam-se, não estão fixadas, mas se tornam errantes. Para o autor, muitas práticas cotidianas são do tipo táticas.

         Para Certeau (1994), assim como há estilos de escrever, há também estilos de fazer/maneiras de fazer. Acredito que os estilos de ação dos alunos na universidade são definidos por todo um contexto social, político, cultural e histórico específico de cada sujeito e instituição, impossível de generalizar, pois sempre há o que acontece em cada ocasião específica.